terça-feira, 13 de agosto de 2013

الأميرة من لبنان (keal amir ami Libnen)



Com escalas ininterruptas
Se vai o que ainda não estava
Me deixando e acompanhando
Permitindo e cerceando

O branco da tua roupa
Reluzindo suspenso nas palafitas que te apresentaste.
Entre os cigarros,
As tintas do teu corpo me convidaram
A algo atrapalhado dos teus movimentos,
A algo simples do teu imenso sorriso.

Tu me mostraste o instinto,
Eu te dei sonhos e fatos,
Foi assim que os astros que acreditas nos permitiram fazer.

Nem a tua fuga, nem a tua velocidade,
Nem a tua partida repentina, nem o dia que se passou,
Nem o rio, que por dois dias esteve abaixo de nós,
Impediram de plantar-me em estranha condição,
Em te esperar como quem ninguém tem
Ainda que cercado pela multidão.

Logo a fita que escorria pelo teu cabelo,
O teu vestido colorido
E a vergonha no rosto cansado de tanto humor
Fizeram meus olhos, firmes e racionais,
Se amansarem como o vento
Que repousa na madrugada
E se reacende na alvorada.
Perdendo o brilho, todo tomado por ti.

De repente minha terra se torna tua terra
E o céu que pintas é o mesmo que encomendo,
O mesmo que te planejo em qualquer noite.

Migras da praia ao frio pela nossa semente
E eu pago, ya habbib, eu pago o preço.
Pago o preço da distância, ainda que momentânea,
Pago o preço dos quilômetros,
Pago o preço da terra imensa e do céu interminável
Porque perto de ti e dentro de nós tudo é suficiente e válido.
Os meus lábios, corpo e pensamentos tornam tudo perto.
Teu carinho e dedicação tornam tudo fácil.

Com o peito apertado e a respiração paralisada
Dirijo-te os versos que a saudade me trouxe,
Que teus olhos e frases em algum momento me inspiraram.

A tua beleza,
A tua essência, sabor e sentido.
 Os versos depositados no teu aroma,
As luas borradas que tentei te dar
E as nossas mãos que permanecem atadas
Me fazem carregar-te
Não como quem te transporta,
Mas como o símbolo que me deixaste ao redor do pescoço:
Como um elo interminável.

-Paulinho Tamer
13/08/2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Água

O início é como a gênese: escuro e desconexo
E ao caos tua pele comanda ordem.
Compelindo os dedos a escrever
E os versos e frases a se derramarem no frio papel.
Dando revoada às letras.

Os olhos que pousam lentamente a mesa,
Que descansam no senso da vergonha
E orgulhosamente tentam mostrar o absurdo ao a olhar para o alto.

A luz que revolta-se em focar,
Preocupa-se mais com cegar, dopar, paralisar.
As retinas e pupilas que agora olham através de lentes,
Eternizando o sopro de calma de cada segundo
Como se o segundo por si só já não fosse sereno só por tê-la.

E quando olhos dementes feriram sua estima,
Os faróis do mundo se apagaram,
As verdades são suposições,
Os olhos que alvoreciam a alma dos poetas
Tornaram-se o anoitecer da vida a seu redor.

Mas o cheio não torna-se vazio
E completo não pode ser fração.
O sublime não pode descer ao belo.

Tua beleza não pelo preço de um copo levantado
Mas pelo preço de tinta e corpo, meus.
Teu humor não pela mísera hora da noite.

E descrever a tua maneira de levar o copo à boca
É suportar o peso de traduzir obra de arte nunca terminada.
Porque pelo teu tom e pelo teu toque tudo se inaugura de novo.

A ironia do refrão é que nada disso te faz sentido.
Conheces o teu pequeno poder de apagar ,
Sem perceber a enorme naturalidade com que podes escrever, gravar, eternizar.
Assim como te eternizo agora
E como ainda te farei imortal outras vezes.

E é o teu senso de imortalidade que falha
Não percebes que ao redor da tua palavra
Tudo se torna imortal
E o tempo hesita em passar.

És assim!
Mesmo que não queiras,
Mesmo que insistas no contrário.
O que é teu não podes abandonar
E as tuas mãos produzem a luz diária
Ainda que prefiras o gelo, muito gelo.
E com pouca água, por favor.


O imortal em ti é toda a peculiar maneira como exalas poesia sem saber
E sem querer.

Aqui, no último verso dessa serena prece de um poeta,
Te mantenho gravada entre as letras,
No último suspiro que precede o sono
Não te dei a morte que te fizeram acreditar ser parte tua,
Te dei vida eterna,
Talvez borrada e manchada por meus olhos as vezes turvos,
Mas ainda clara enquanto durar o embalo do teu respirar.

-Paulinho Tamer

13/06/2013

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

VeRde


O meu corpo observou e viu apenas os teus olhos
Claros e calados sob a luz calma do ambiente
Era meu corpo, cadeado, colado ao teu
E dançávamos ao ritmo dos lençóis suados

Eu habitei debaixo da tua pele
E por dias fui quadro pintado em tua íris
Fui acolhido por teu colo
Te dando meus braços como teu manto
Meus olhos baixaram no delírio das nossas horas juntos

Tua companhia, estado imune, me é fatal e fatalista
Eu morro a cada minuto que minhas mãos tocam a seda da tua pele
Eu morro a cada minuto que meus dedos tocam teu rosto
Eu morro a cada minuto que tua saliva ainda repousa em minha boca
Eu morro a cada minuto em que eu me permito viver.
És a completude da vida
Onde morro para estar constantemente nascendo.

As mãos aos poucos escorregaram
No suor das nossas tribulações
De repente, algoz do destino,
Fui violentado pelo mundo,
E foste-me arrancada, roubada, tirada, raptada, furtada, escondida,
Trancafiada na crueldade das armas
Enjaulada pela doença do egoísmo
Pela posse desnaturada, imatura e degenerada dos homens.

E o teu ballet vai sumindo dos meus olhos
Como a mansa nuvem que a minha infância um dia observou
Minha mágica caixa de música foi fechada
A bailarina foi escondida sob a sombra da insanidade

Sim, eu perdi.
Tudo me foi tirado dos olhos
Mas teus olhos continuam gravados no meu braço
E teu ritmo continua incessante em cada respiro.

-Paulinho Tamer
08/02/2013

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Manifesto do Palhaço


Ele se lacrou em versos rubros
Se violou em seus próprios versos de vergonha
Nas suas imaginações de sobrevivência
Nas suas más ações
No seu egoísmo altruísta

Evasão rápida e conclusa
Nada aqui muda
Nada aqui cala
Nada aqui se aquieta
Tudo aqui se acumula

És meu pai, meu deus e meu escravo

Derretendo mentes e corações
Ele conquistou as ruas, os olhos claros e escuros
Negros, jabuticabas, verdes, azuis, melados em suas rimas e ritmos
Ele é o rei das minhas letras,
De meus dedos
Que marcam brandamente as teclas da velha maquina datilográfica

Agora ele é um cofre
Moribundo e fétido
Que arde em suas emoções reclusas
Nas sombrias passagens das almas
Ele é menino mendicante
Com fome e só
Fugindo de todo Sol, do todo lar e de toda bondade

Vomitando em si mesmo o ódio que se reservava no coração lírico
Sim, ele é seu próprio alvo
Quer o olho do touro em sua ira

De tanto doar o doce lhe restou apenas o amargo do asfalto
E eu assisti e assisto tudo
Com ódio nos olhos, com amor no peito
Com tudo que me é
Ele é e eu também
Eu o sou e ele me é
Sou ele, ele sou eu.

Ele precisa me pintar a cara,
Me vestir de seu herói,
Me ninar a cada noite em que a fúria me domina
Me adoça com suas metáforas.

Limpo lágrimas, sangue e tinta.
Limpo letras, limpo sua língua com agua quente e olhos negros

As petecas da minha cara são as mesmas da dele

Sim eu vou higieniza-lo na sua própria obra.
E nesse momento de dor e torres altas
Eu lhe lançarei os laços da minha farda
Protegerei seu coração de poeta em meu rosto maligno de divindade.

Sim, o poeta se lacrou  seus porcos imundos
Seu mundo inútil
Sentireis a ira das minhas formas macabras
Sim, o Deus-Palhaço volta e toma o mundo de assalto.
Firam meu corpo mutilado por suas amarguras e mediocridades
Atirem em mim as balas egoístas das suas filhas, das suas amantes.
Passem por cima de mim com suas coisinhas miúdas guardadas no saco velho e furado da sua honra.

Traíste o teu maior aliado,
Aquele que mais te amou
Que mais te quis e que mais te fez apaixonar.
Agora eu sou o que lhes resta por enquanto.

Sim, não mais versos de boca suave
Agora apenas líricas de um coração espinhoso
De uma língua que berra ao invés de cantar

No meio-dia das vossas vidas lhes tirarei o sombreiro
E vou expor seu couro imundo ao Sol que vos  crucificará
Permitirei que mesmo a Lua vos queime com minhas expressões letais.

Não vos darei a compaixão
Foi com ela que apunhalaste o poeta que agora se esconde
Lavarei a alma do poeta com as suas lagrimas
Com suas lagrimas expostas pelo orgulho agora desnudo
Pelo vosso preconceito agora a mostra
Pelo vosso hálito de dor
Quando até vossas orelhas esquentarão no inicio do tormento

Vos darei apenas os olhos do juiz,
Só recebereis de mim barras e não mais chaves.

O poeta pintou a minha cara com seu amor
Agora eu limpo a dele com a dor em que fui forjado.

-Roquentin. (Sim, o palhaço)
31/01/2013

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Farol


Teu corpo marcado e findado
No alvo das estrelas que nem sempre aparecem
Teus olhos cravados com as esmeraldas da coragem
E o pequeno corpo frágil de cordeiro, caça.

E os teus dedos e movimentos
Percorrendo o amago da nostalgia das horas
Fadadas a te louvarem a cada segundo da tua curta e imensa vida

És a frustração dos corpos celestes
Encobertos pela fumaça dos homens

E a tua mente se entorpece

Teus olhos diminuem o farol da tua atenção
E teu amor se entrega pra mim
Em estado absoluto de espirito

Afinal, cruzaste terras e naturezas
Em ambulantes pássaros, teus fieis
E os ventos te trouxeram pra mim
No cuspe do destino que não existe
No colo do imaginário
Nisso que os pequenos chamariam de sonho.

No teu templo que habito
Percorro minhas coragens e virtudes
Te entregando a felicidade das letras

Minhas poesias são agora tuas
Minha mente compõe em tua homenagem
Na homenagem do pequeno poeta
Diante da franqueza da tua beleza.

O espaço se contrai com as tuas passadas
O mundo reverencia a forma como tua pele se marca
Ou como marcas a pele tingindo a alma.

Perseveras em minhas letras
Como teu amor persevera em mim
Sem cessar a necessidade mutua
Que sente o alvo das nossas mãos
De procurarem umas as outras
Em uma dança de chegada e regresso.

Me abrigaste em teu infinito e celeste amor
Eu te eternizei no negro dos meus olhos
E nas letras e palavras que desenham minha alma, tua.

-Paulinho Tamer
09/01/2013

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Pequena Dançarina


Pela primeira vez eu senti a necessidade de um clima são.
Senti as pupilas desejarem nada mais do que o são papel,
Senti os ouvidos não ouvirem nada mais do que o são silêncio,
Percebi o corpo sentindo a necessidade de todo o espaço possível
Sem interferências de corpos no mesmo espaço.

No meio do turbilhão da noite,
Guardado eu em meu armário,
Cercado pelas paredes tortuosas do destino que esculpi.

Abstive-me da solidão e parti.

Os meus olhos chegaram despretensiosos
Em ambientes tão familiares, com belezas tão comuns.
O piso era o mesmo,
As paredes da mesma cor,
As caixas dos corações lacrados continuavam encadeadas no ordinário.

Nem o ar era surpreendentemente novo,
Nem mesmo as janelas estavam em ângulos diferentes.

Brotaste do extremamente ordinário, do comum, do nada novo.
Com os quadris repousados em tapete vermelho barato
E todas as outras coisas sem beleza.

De imediato meus olhos captaram a tua beleza.
A beleza que partia da luz de todas as tuas formas.
Beleza partida, e em partida,
Iluminando humildemente o que poderia ser ofuscado.
Tuas retinas e tuas coisas eternizando o que houvesse ao redor.
Dando de si e tomando dos outros.

A voz mansa que quase não respondia a estímulos
Caminhando lindamente como sobre corda bamba,
Tocando os cantos emadeirados,
Dirigindo sua beleza pra tudo que não importava.

Na tua pele alva eu vi os riscos do que ainda te restava de ti mesma.
Foi quando os olhos apertaram e entenderam porque a tua pálida beleza.

Tiveste tua beleza violentada
Pelos vis inimigos do que és: transcendente,
E teus olhos, faróis, se borraram no espelho,
No lago que afogaste narciso também te afogavas,
Com tantas dores, com tantos motivos.

Eu te quis pra mim de imediato.
Te quis ressaltar tua digna beleza,
Tirar a luz do teu sol do inverno das tuas lembranças
E trazer à primavera dos meus braços.
Nos meus braços.

E o teu sorriso se abriu.
A felicidade brotou dos teus rubros lábios,
A tua beleza hoje grita e ordena,
E a cada vez que teus dentes se mostram
O tempo emudece para ti
Em um solene gesto de reconhecimento da tua grandeza

Hoje teu sorriso não vem mais do amarelo da boca
Mas do verde dos teus olhos.

Vejo o banho que tomas em plena caminhada
A higiene da tua beleza que meus negros olhos que te observam.

As ideias com tanto ritmo quanto teu corpo de pequena dançarina
Hoje saem de ti aos berros
E a luz fosca que antes vinha da tua cabeça,
Hoje vem vibrante das tuas entranhas,
De tudo aquilo que mais és.

E o que és?

És o repositório do mundo,
O santuário onde tudo se redime
E onde a beleza se ajoelha.

Tens o gosto de carne santa,
Onde toda a minha poesia se alimenta,
Pois o teu toque cura tudo em que falte arte,
E para tudo o que queira correr.

Ah, benzinho,
Vês em mim beleza
Enquanto eu quero apenas te mostrar o espelho.

És a magnitude das inspirações,
De onde minha poesia não mais precisaria de outra fonte
Senão te ter em mim e pra mim.

És a ganância negada às flores de terem todo o belo,
Pois tua pele, teu corpo, teus olhos, lecionam ao imortal
E o imortal que tentas captar está do outro lado da lente.

-Paulinho Tamer
01/01/2013

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Dança da Fuga


Quando todos os âmagos parecem triturados,
Reluzindo sua dor em tom âmbar.
E todas as almas em uma dança de fuga,
Temendo a paixão de qualquer coisa.

Quando os infinitos se cortam em um som seco,
As paralelas se desmontam em som doce
E as flores desabrocham na doçura das tuas curtas e retidas palavras.

Quando o tempo esfria pelo mistério dos teus olhos quando se ausentam,
Os pisos perdem o polimento com a tua partida
E os perigos que causas cessam e a vida pacata volta a sua solidão.

Quando as vigas da edificação da razão perdem a razão com a tua vergonha
E o teu rosto inteiro se abre em sorriso que assombra a mais bela das melancolias.

Aí, coisa linda!
O mundo passa a temer a sua própria tristeza.
O ar enobrece e o alento primário dos homens parece valer a pena.
Os corações se entregam em derrame de honestidade.
As mãos imediatamente se procuram.
Olhos em perseguição.
A vida parece, mais uma vez, ser possível.

Paulinho Tamer
05/12/2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Soneto do amor imortal.

A beleza anuncia a tua chegada
Percebendo-te no Sol da alvorada
Se desfazendo em meu triste lamento
Por notar teus olhos em sofrimento.

Sempre importa a natureza da trama
Te confesso, as vezes, por puro desejo
Contemplo teus olhos em mar de chama
No salgado e na dor do teu lampejo.

Me fascina o teu amor desprendido
Fito teus olhos como o de um bezerro
Que espera por assim ser recebido.

Através de ti tudo nasce e mente
Até me arriscando a dizer em erro
Que tudo, morrendo em ti, é semente.

Paulinho Tamer
03/12/2012

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Foco


Quem então
Levantaria do sepulcro das constelações
Uma dúvida acerca dos teus olhos gulosos
Que ingeriram todo o brilho esfumaçante
Das estrelas que jazem mortas e reluzentes?

Pouca inspiração
Não aflige as reais razões do meu escrever

A explosão de idéias que a tua pele me inspira
É tão fascinante quanto um universo que se cria e se dobra
Que se alimenta de si mesmo
E se auto-sustenta

Toda essa forma com que teu sorriso
Estica olhos em alegria
E faz bocas tocarem orelhas
É o que inevitavelmente
Inspira toda a realeza
Dos devaneios poéticos

Essas coisas que te escrevo
Sem falsa modéstia
São pobres
Ínfimas
E inúteis
Quando comparadas com a sutileza com que teus olhos
Disseminam versos no ar.

O teu sorriso reverberando pelas paredes brancas
Ou da cor que queiram tomar
Atordoa os ouvidos mesquinhos
E derrama paixão no ouvido que te quer

És a aventura que livros tentam aumentar
A verdadeira natureza do espontâneo
E a franca mentira dos destinos pacatos
Porque tudo em ti grita
Tudo em ti compõe ambas as partes do todo
Tudo em ti, principalmente, acaricia o medo do fracasso
Antes de devorá-lo

Retumbante quebra de paradigmas
Contraditório comportamento teu
És projétil de absoluto
Mas vejo a dúvida em teus olhos foscos
Sufocando o que deveria ser livre
Dando grilhões ao permitir-se
Ao entregar-se

Ah, coisa linda
Tu és o conceito e a figura do que se conhece por liberdade.

Luizinho


Meu amigo,
Todos os dias passam
Com as horas vorazes e velozes

Todas as distâncias permanecem
Todas as paredes mantêm-se de pé
Todas as circunstancias
As vezes
Continuam contrárias

Mas algo vive,
Permanece
Revive
Ressuscita
E renasce

A eterna lembrança
Da infância incomum
Dos interesses comuns
E da discrepância dos espíritos para com os outros

É meu jovem amigo
Eu sou mais velho que você
E você mais velho que eu
Homens velhos em quereres
E jovens em transcendência

És lembrado por mim
Com o carinho de um livro antigo
Com o bem de uma nova ideia

Por quantas vezes penso em profunda análise
E tu sempre me vens à mente em belas palavras
Em uma poética que nasce da nossa amizade
Da vivificante experiência do saber existir

És tão imenso em mim
Tão contemplativo
Tão peculiar
Tão detestável
Tão estúpido
Tão sabido
E tão idiota
Tão grande
Um verdadeiro gênio
Que por todas as provas em contrário
Minha cega admiração continuará fruindo

És um grande presente
E um honroso passado
Não permitirei ausentar-te de meu futuro

Meu amigo
Meu confrade

Meu Luizinho.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Gravura


São caracóis de dúvidas os teus cabelos
Invertendo a polaridade de todo o chão da minha natureza
És bela nos teus desajeitos ou nos teus mal jeitos
As tuas expressões nem sempre convidativas
Mas que sempre me gravitam em tua direção

É inominado o que minhas letras sentem por ti.
Elas se afeiçoam e emburram.
Me deixam como menino pio
Ao se sentir o dono do mundo quando em cima de uma mangueira

Teu âmago aleitado como tua pele
Escreve no espaço por teus dedos musicais e misteriosos

Penso em ti como penso em mim
Como as letras me saem por cada poro
Tuas cores e curvas brotam das tuas palavras.

Me impressiona decifrar-te na tua beleza e inconsistência,
Na gravura que teus ombros deixam ao passar,
Pois tu te perpetuas nos espaços lidos por meus olhos,
Vendo teu existir desenhar-te nas rodas vivas.

Como pôde natureza tão ingrata compor-te em tamanho silêncio?
Como pôde mundo tão racional forjar-te em tamanha emoção aos homens?

Aqueles que te vêem
Sem perceber sua sorte
São como marinheiros que não reconhecem tesouros,
Desbravadores que não sentem em seus pés a maciez da terra nova,
Palhaços que deixam passar o instante da piada.

És assim,
Um instante que quase não pertence ao presente
Que sempre deixa a sensação de algo que não foi inteiramente aproveitado

Negas as expectativas.
Mas como podes?
Se seres como tu
São a representação viva da esperança e do que se pode esperar

Mas é assim:
Tão enorme tua fonte
Tão curto o momento
Tão infinita tua poesia.

-Paulinho Tamer
29/11/2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Meus olhos dançam contigo


Branca e de beleza latina
Balançada com maracas e chocalhos.
Ritmo de quadris balançantes
Mente inebriante

Os olhos fixados nos quadris próprios
És Joana, Maria, Rita, Celeste
Todas em ritmo suado e embriagado

Refratadas nas palavras desidratadas
Pelo suor levado ao chão de madeira antiga
No clima árido da música e do álcool a que te entregas

Feita e refeita na tua pele de cera
Nada cubana, nada boliviana
Caucasiana e europeia
Com a cintura e a mente de Bolívar
Repousadas em pernas que se movimentam

Feições fixadas no transcendente da música
Olhar para cima com a noite escura e quente
Cabelos negros e esvoaçantes com tambores africanos
Cumbios e mulatos

Olhos de infinito gravado em minhas costas
E que me bombeiam o sangue dos olhos
Buscando o encaixe das batidas das nossas almas.

-Paulinho Tamer
24/11/2012

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Menina da Garoa

Eu pude te perceber melhor
Olhar as leves ondulações do teu cabelo
Que cai lenta e vergonhosamente

A tua pele carrega algumas marcas
Marcas de um passado poente
De uma tristeza agora latente

Mas teu sorriso jaspeia meus olhos
Os quatro olhos do poeta-palhaço

Sim, teu sorriso causou uma leve dor
Em cada entranha de todos os meus seres
A dor que leva ao percebimento da vida

E quando a tua boca se abre em raio
Todas as coisas permanecem imóveis
Paralisadas pela mordida da tua beleza

E teus olhos explicando algo de surpreendente
Se arregalam na seriedade inebriante do teu semblante
Como ventos partindo tempestades

És mesmo uma tempestade
Uma tempestade de motivos, fatores, causas, consequências, dores e beijos
Uma tempestade de sorrisos, tempestade lunar inexistente
Tempestade das tardes mortas de domingo.

De repente, os mesmos olhos grandes e convincentes
Se retraem na desnecessidade da tua vergonha
Fogem de mim
Escondem-se atrás do reluzir dos teus dentes
Que é causa da contração graciosa e delicada das tuas feições
O Sol que se esconde atrás do Sol.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Menina de Cinema

Eu te conheci em acidentes e bares
Em desconfortos da cidade vibrante
E o meu aguçado senso de investigação
Julgou-te mal
Percebeu-te erroneamente

As tuas feições me pareceram calmas e inexpressivas
Sem as fortes opiniões necessárias à ignorância construtiva
Uma mulher pouca em tudo, insuficiente

Mas na verdade o teu mistério se maquia em pequenez
Qualidade e características não dos miúdos, mas dos gigantes

As feições que parecem calmas,
Revelam as guerras das tuas contradições
O copo que cobre quase todo o teu rosto
Não é por vergonha
Mas por puro convencionalismo

És mutante
Mutante flexível às imaginações, às pessoas
Às condições, as proporções, aos sonhos
Te apequenas e te agigantas de acordo com a tua vontade
E isso é muito,
Porque os grandes são poucos
E os poucos são muitos
Mas possuis a magia e brutalidade de ambos

És mais que atriz,
Vives a arte do filme da tua vida
No drama e comédia dos teus olhos
No suspense e terror das tuas mãos amigas
No conforto e fantasia do teu abraço calmante
No documentário das tuas palavras mansas
Na ficção das historias contadas pela tua boca
Na infantilidade dos teus pensamentos
Que são ora recém-nascidos e ora matusaléns
E na independência cinematográfica dos teus atos

Não és nem um pouco poética
Talvez por isso tenha demorado tanto para escrever-te
És sim, artística
Pois teus jeitos e posições são rabiscados, esboçados, pintados e expostos
És a galeria da minha alegria
Um ser escondido atrás de telas
E protegido pelos meus versos
Que te guardam e te absorvem pra mim
Queria eu ser pedaço teu
Para o poder viver a guerra com tanta calma

Sim, és a equivalência de forças na curva dramática do filme da vida
Meu orgulho e meu juiz

Nenhum homem tem mais sorte que o poeta que te escreve
Pois qualquer um pode te ter de acordo com a tua vontade
Mas eu te possuirei sempre dentro de mim
Guardada e com o teu sono sincero velado
Ainda que contra a tua vontade

Com a tua mansuetude abriste a porta do cinema
E deixaste a arte sair da sala e invadir a vida.

-Paulinho Tamer
13/11/2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Vai e vem


A doce harmonia que deságua no desespero
A agonia dos corpos nus, dilacerados, contorcidos
No doce deslinde da paixão.

O sacrifício das purezas, das inocências
Em prol do unir peças em pura vida
No quadrante deslocado dos olhos embriagados

Pois o corpo mareja nas mãos, nos olhos
Pelos poros guarnecidos de movimento
Pois foi assim que saíste de mim
Como um resto
Como o dejeto do que já fora consumido

Arranquei cada pedaço de pele teu colado em meu âmago
Prostituido pelo teu egoísmo sincero e brilhante
Agitado pelo embalo da tua triste vontade incontornável
Que desmonta um monumento de paciência

Tirar-te de mim deu-me mais prazer do que enxertar-te em minha vida
O amargo de perder-te é mais doce que o de ganhar-te

Suei-te de mim,
Como um desintoxicar de alma
Como um purificar dos olhos refreados por dor
Como um expurgo de paixão que não cabia em mim

-Paulinho Tamer
08/11/2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Salto ao solstício


São os teus olhos espremidos pelo sono
Ou as sobrancelhas que delineiam a beleza vasta da tua graça
Ou seria a forma dos teus dentes que reluzem no barro de solidão da tua boca
Poderia ser a forma um pouco vulgar e clichê das curvas do teu pescoço
Ou inclusive poderiam ser as cores dos teus olhos que emanam uma espécie de poesia italiana
Cheia de lagrimas, remorsos, alegrias, regozijos e o brado do teu belo.

Eu te observo sem que saibas
Vejo na tua pele em cera
A cultura que a mim não pertence
Alcanço nos registros de tuas movimentações pelo tempo
A calma e a arritmia dos versos que transpiras.

É, meu bem, nasceste poética
Em rubro desejo dos versos latinos

Teu corpo se comporta como pena
Pintando, escrevendo, riscando, gravando, gritando
No papiro da vida os versos sufocados pela falta de olhos alheios

Mas meus olhos são teus, te decifro, te busco
Nos números dispensados das aulas
Nas formulas sensatas ou irracionais das poesias
Procuro tua forma no embalo dos sonetos que saem do teu caminhar

Estás longe de ser Alexandrina, longe da forma exata
Longe de ser inteiramente decifrada por mim
Iniciei agora o desvendar do teu enigma

És poesia ambulante,
Que cria, nasce, cresce, marca, morre, vive, canta e recomeça
A forma como tornas o corpo tem a letra dos mares chorosos, azuis, e negros
Em tuas mãos perfumadas e pálidas repousa o barro da minha construção
Que tenta esculpir-te, dar-te a forma dos meus sonhos.

Que forma tem meus sonhos?
Tomaste de assalto a imaginação de um poeta
Agora todos os meus versos te seguem como fogo-fátuo de inspiração

Ah meu bem, quando me apareceres em pessoa
Serás o solstício da minha vida
Quando a luz estará bravejando em teimosia
E não deixará de existir antes que queira
Sem respeitar qualquer ordem natural
A pura rebeldia das forças que evocas.

És colheita e plantação dos sonhos das minhas palavras.
És o negrito e o sublinhado dada a parte mais importante de um verso
És onde os olhos devem repousar e não mais perceber o mundo em volta.

-Paulinho Tamer
30/10/2012

domingo, 28 de outubro de 2012

Festa da vida


Grande o homem é em reconstrução
Tijolos e massas em emoções decaídas
Reverberando na alma o som de uma tristeza indecente

A calma já não me pertence
Nem o desespero me assola
Em estado sem sentido, sem conceito
Sem a definição de uma construção
Pois as mãos suam quando surge a necessidade de definir-me
E os domingos suicidas parecem começar a fazer sentido
Aos olhos pobres do homem ainda cheio de vida
E ainda há muita vida pelos ares externos à minha caixa de aflição

Há muita vida para desistir da vida
Pois a vida, assim como o coração do poeta
É sem definição e sem possibilidade de mensuração
A vida é sempre enorme e é vida, ainda que pouca.

-Paulinho Tamer
27.10.2012

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Verdade Primeira

Investigo-me a consciência.

Livra-me do amanhecer, noite das dúvidas.

Reforma-me em sons agudos e timbres harmoniosos.

Ah, dúvida dos homens,

Construam homens sem dúvidas.


Questionar-me em minha guerra

É realizar-me de paz e verdade

E encher-me do terror do conhecimento.

Conhecer dá medo,

Mais medo é não conhecer o medo.


Paz ou guerra?

Escolho ambas como minha cama.

Estar em paz por conhecer,

Estar em guerra com o revelado.


E assim me sinto em campo,

Em uma paz em estado permanente

E uma guerra em estado latente.

A guerra dos homens é não conhecer,

A paz do espírito é não conhecer a ignorância,

Apenas a calmaria da verdade.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A falta da pele

Os versos mentirosos contaram ser a tristeza coisa triste

Mal sabia os poetas charlatões

Que a saudade é tristeza pior que a tristeza

É mal pior que a doença


Me assombras a falta de forma peculiar

Em um aperto no ventre

Em um pensamento pragmático

E um delírio das razões


Benzinho, as noites sem ti nem noite são

Me fazes falta o toque

O olho

A mente

A maneira

E o beijo


As noites sem ti são, no máximo, só noites

Sem tantas alegrias

Com quase nenhuma vontade.

Despidas de desejo

E pobres de festa


A saudade é bactéria

Contamina-me de tristeza

De vontade do que não posso

De saudade das tuas posses

Das tuas ordens

Das tuas vontades fúteis de segurar minha mão


Eu mal consigo pensar

Sou ralo em inspirações

Raso em poesia

És o fermento da minha criatividade

Os versos que componho em pura exaltação do amor


És o amor em si

Por isso amo o amor

És a presença

Por isso não vivo sem está


És meu infinito que busca o seu começo

És um começo já dado, mas que pressente a sua verdadeira largada

Começaste breve, em oito dias

Retumbaste grave em um ano

E reverberarás por toda a minha vida.

sábado, 8 de outubro de 2011

Homem, Mundo

Ah, Deus

Me orgulho dos vastos céus sem azul

Dos mares agitados e sem piedade

Das terras chacoalhantes e indignas


Me orgulham também as flores mansas e inocentes

O asfalto negro e resignado

As arvores que questão nenhuma fazem de se mexer


Assim me regozija a paixão

Sem calma nem paciência

Sem imagem nem decência


Da mesma forma o amor

Paciente e desprendido

Sem avidez nem possessão

Lento e etéreo como os ventos


Somos seres como a natureza

Violentos e pacíficos

Ingratos e agradecidos

Subjugados a dor e a alegria

Eivados por esperança e desespero.