sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Menina da Garoa

Eu pude te perceber melhor
Olhar as leves ondulações do teu cabelo
Que cai lenta e vergonhosamente

A tua pele carrega algumas marcas
Marcas de um passado poente
De uma tristeza agora latente

Mas teu sorriso jaspeia meus olhos
Os quatro olhos do poeta-palhaço

Sim, teu sorriso causou uma leve dor
Em cada entranha de todos os meus seres
A dor que leva ao percebimento da vida

E quando a tua boca se abre em raio
Todas as coisas permanecem imóveis
Paralisadas pela mordida da tua beleza

E teus olhos explicando algo de surpreendente
Se arregalam na seriedade inebriante do teu semblante
Como ventos partindo tempestades

És mesmo uma tempestade
Uma tempestade de motivos, fatores, causas, consequências, dores e beijos
Uma tempestade de sorrisos, tempestade lunar inexistente
Tempestade das tardes mortas de domingo.

De repente, os mesmos olhos grandes e convincentes
Se retraem na desnecessidade da tua vergonha
Fogem de mim
Escondem-se atrás do reluzir dos teus dentes
Que é causa da contração graciosa e delicada das tuas feições
O Sol que se esconde atrás do Sol.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Menina de Cinema

Eu te conheci em acidentes e bares
Em desconfortos da cidade vibrante
E o meu aguçado senso de investigação
Julgou-te mal
Percebeu-te erroneamente

As tuas feições me pareceram calmas e inexpressivas
Sem as fortes opiniões necessárias à ignorância construtiva
Uma mulher pouca em tudo, insuficiente

Mas na verdade o teu mistério se maquia em pequenez
Qualidade e características não dos miúdos, mas dos gigantes

As feições que parecem calmas,
Revelam as guerras das tuas contradições
O copo que cobre quase todo o teu rosto
Não é por vergonha
Mas por puro convencionalismo

És mutante
Mutante flexível às imaginações, às pessoas
Às condições, as proporções, aos sonhos
Te apequenas e te agigantas de acordo com a tua vontade
E isso é muito,
Porque os grandes são poucos
E os poucos são muitos
Mas possuis a magia e brutalidade de ambos

És mais que atriz,
Vives a arte do filme da tua vida
No drama e comédia dos teus olhos
No suspense e terror das tuas mãos amigas
No conforto e fantasia do teu abraço calmante
No documentário das tuas palavras mansas
Na ficção das historias contadas pela tua boca
Na infantilidade dos teus pensamentos
Que são ora recém-nascidos e ora matusaléns
E na independência cinematográfica dos teus atos

Não és nem um pouco poética
Talvez por isso tenha demorado tanto para escrever-te
És sim, artística
Pois teus jeitos e posições são rabiscados, esboçados, pintados e expostos
És a galeria da minha alegria
Um ser escondido atrás de telas
E protegido pelos meus versos
Que te guardam e te absorvem pra mim
Queria eu ser pedaço teu
Para o poder viver a guerra com tanta calma

Sim, és a equivalência de forças na curva dramática do filme da vida
Meu orgulho e meu juiz

Nenhum homem tem mais sorte que o poeta que te escreve
Pois qualquer um pode te ter de acordo com a tua vontade
Mas eu te possuirei sempre dentro de mim
Guardada e com o teu sono sincero velado
Ainda que contra a tua vontade

Com a tua mansuetude abriste a porta do cinema
E deixaste a arte sair da sala e invadir a vida.

-Paulinho Tamer
13/11/2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Vai e vem


A doce harmonia que deságua no desespero
A agonia dos corpos nus, dilacerados, contorcidos
No doce deslinde da paixão.

O sacrifício das purezas, das inocências
Em prol do unir peças em pura vida
No quadrante deslocado dos olhos embriagados

Pois o corpo mareja nas mãos, nos olhos
Pelos poros guarnecidos de movimento
Pois foi assim que saíste de mim
Como um resto
Como o dejeto do que já fora consumido

Arranquei cada pedaço de pele teu colado em meu âmago
Prostituido pelo teu egoísmo sincero e brilhante
Agitado pelo embalo da tua triste vontade incontornável
Que desmonta um monumento de paciência

Tirar-te de mim deu-me mais prazer do que enxertar-te em minha vida
O amargo de perder-te é mais doce que o de ganhar-te

Suei-te de mim,
Como um desintoxicar de alma
Como um purificar dos olhos refreados por dor
Como um expurgo de paixão que não cabia em mim

-Paulinho Tamer
08/11/2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Salto ao solstício


São os teus olhos espremidos pelo sono
Ou as sobrancelhas que delineiam a beleza vasta da tua graça
Ou seria a forma dos teus dentes que reluzem no barro de solidão da tua boca
Poderia ser a forma um pouco vulgar e clichê das curvas do teu pescoço
Ou inclusive poderiam ser as cores dos teus olhos que emanam uma espécie de poesia italiana
Cheia de lagrimas, remorsos, alegrias, regozijos e o brado do teu belo.

Eu te observo sem que saibas
Vejo na tua pele em cera
A cultura que a mim não pertence
Alcanço nos registros de tuas movimentações pelo tempo
A calma e a arritmia dos versos que transpiras.

É, meu bem, nasceste poética
Em rubro desejo dos versos latinos

Teu corpo se comporta como pena
Pintando, escrevendo, riscando, gravando, gritando
No papiro da vida os versos sufocados pela falta de olhos alheios

Mas meus olhos são teus, te decifro, te busco
Nos números dispensados das aulas
Nas formulas sensatas ou irracionais das poesias
Procuro tua forma no embalo dos sonetos que saem do teu caminhar

Estás longe de ser Alexandrina, longe da forma exata
Longe de ser inteiramente decifrada por mim
Iniciei agora o desvendar do teu enigma

És poesia ambulante,
Que cria, nasce, cresce, marca, morre, vive, canta e recomeça
A forma como tornas o corpo tem a letra dos mares chorosos, azuis, e negros
Em tuas mãos perfumadas e pálidas repousa o barro da minha construção
Que tenta esculpir-te, dar-te a forma dos meus sonhos.

Que forma tem meus sonhos?
Tomaste de assalto a imaginação de um poeta
Agora todos os meus versos te seguem como fogo-fátuo de inspiração

Ah meu bem, quando me apareceres em pessoa
Serás o solstício da minha vida
Quando a luz estará bravejando em teimosia
E não deixará de existir antes que queira
Sem respeitar qualquer ordem natural
A pura rebeldia das forças que evocas.

És colheita e plantação dos sonhos das minhas palavras.
És o negrito e o sublinhado dada a parte mais importante de um verso
És onde os olhos devem repousar e não mais perceber o mundo em volta.

-Paulinho Tamer
30/10/2012

domingo, 28 de outubro de 2012

Festa da vida


Grande o homem é em reconstrução
Tijolos e massas em emoções decaídas
Reverberando na alma o som de uma tristeza indecente

A calma já não me pertence
Nem o desespero me assola
Em estado sem sentido, sem conceito
Sem a definição de uma construção
Pois as mãos suam quando surge a necessidade de definir-me
E os domingos suicidas parecem começar a fazer sentido
Aos olhos pobres do homem ainda cheio de vida
E ainda há muita vida pelos ares externos à minha caixa de aflição

Há muita vida para desistir da vida
Pois a vida, assim como o coração do poeta
É sem definição e sem possibilidade de mensuração
A vida é sempre enorme e é vida, ainda que pouca.

-Paulinho Tamer
27.10.2012

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Verdade Primeira

Investigo-me a consciência.

Livra-me do amanhecer, noite das dúvidas.

Reforma-me em sons agudos e timbres harmoniosos.

Ah, dúvida dos homens,

Construam homens sem dúvidas.


Questionar-me em minha guerra

É realizar-me de paz e verdade

E encher-me do terror do conhecimento.

Conhecer dá medo,

Mais medo é não conhecer o medo.


Paz ou guerra?

Escolho ambas como minha cama.

Estar em paz por conhecer,

Estar em guerra com o revelado.


E assim me sinto em campo,

Em uma paz em estado permanente

E uma guerra em estado latente.

A guerra dos homens é não conhecer,

A paz do espírito é não conhecer a ignorância,

Apenas a calmaria da verdade.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A falta da pele

Os versos mentirosos contaram ser a tristeza coisa triste

Mal sabia os poetas charlatões

Que a saudade é tristeza pior que a tristeza

É mal pior que a doença


Me assombras a falta de forma peculiar

Em um aperto no ventre

Em um pensamento pragmático

E um delírio das razões


Benzinho, as noites sem ti nem noite são

Me fazes falta o toque

O olho

A mente

A maneira

E o beijo


As noites sem ti são, no máximo, só noites

Sem tantas alegrias

Com quase nenhuma vontade.

Despidas de desejo

E pobres de festa


A saudade é bactéria

Contamina-me de tristeza

De vontade do que não posso

De saudade das tuas posses

Das tuas ordens

Das tuas vontades fúteis de segurar minha mão


Eu mal consigo pensar

Sou ralo em inspirações

Raso em poesia

És o fermento da minha criatividade

Os versos que componho em pura exaltação do amor


És o amor em si

Por isso amo o amor

És a presença

Por isso não vivo sem está


És meu infinito que busca o seu começo

És um começo já dado, mas que pressente a sua verdadeira largada

Começaste breve, em oito dias

Retumbaste grave em um ano

E reverberarás por toda a minha vida.