terça-feira, 4 de outubro de 2011
Versos em Luz
Avalio cada pedaço da minha dor
Derramada em lamento
Esperando pelo céu que se enegrece
Tornar-se mais uma vez claro
Observo como o Sol
Lentamente banha o mundo de um calor suado e confortável
Imaginando um conforto e sonolência
Tão necessários à pacificação do meu espírito
Quanto o sangue é necessário ao corpo
E a minha natureza se desfaz
Em pedaços miúdos caídos ao chão
Me separando de mim mesmo
Permitindo a cada pedaço da minha dor
Pensar por si só
Esbravejo pelo meu despedaçar
Grito de dor sufocado
Sem hálito e respiração
Sem bocas abertas ou cabeças baixas
Apenas olhos molhados
E coração encharcado de saudade
Que a razão me invada e me reconstrua
Em minúsculos pedaços de fé
Em inúmeras partes de esperança
E em infinitas partes de amor.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Versos de Clara
Fácil falar do amor em dor
Em pêsame
Em perda
Em separação
Mas teu amor em mim
Se mostrou mais que tudo
Mais que um dom
Mais que uma memória
Mais que um professor
Caminhando pela seara do meu desconhecido
Contemplo minha razão
Meu troféu solitário
Em completa balburdia
Em decomposição
Substituíste meu frio pensar
Pela alegria dolorida da emoção
Pelo amanhecer do meu amor por ti
Ainda inclino a cabeça para ver-te
Como o lobo que se curva para ouvir o vento
Freando meu pensar
E dando força ao gatilho do que me infesta
Ao refeitório lúcido do meu amor
És minha refeição
Meu pão diário
Aquilo que não pode me faltar
O incisivo golpe que cega
E a soberana ordem que dá vida
És o nascer e o renascer meu
O intuitivo modo de abrir os olhos
O involuntário ato de respirar
És um verso claro
Límpido e transparente
Que parte de mim
Da minha boca
Das minhas letras
E toma o mundo com a autoridade da tua beleza
Ah, meu bem
Te vejo como a flor
Que não padece sob o outono criminoso
Te vejo como a morte de todo ímpio
Como a extirpação de toda a minha iniqüidade
Me permites equilíbrio,
Sobriedade e felicidade
És meu começo e minha metade
Minha fartura e minha falta
Minha luz e meu pensar
És o beijo do vento em meu rosto
Meu amor em paz composto
Minha fatia de divindade
Teu amor por mim me invade
Me toma e me agracia
Me permite o sacrifício dos meus erros
E a premiação dos meus acertos
É o coração jovem que bate ruborizado
Em plena atividade de vida
O organismo que nunca padece
És parte mulher e parte inverno
Parte menina e parte calor
Parte de mim e parte de tudo
Pois parte de mim para ti
Meu amor, meus versos, meu mundo.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Tua cor marrom
Estupefato em necessidade
Assim me acho
Perdendo-me em ti
Nas tuas falanges de alegrias
Nas tuas guerras de lagrimas
O alibe do teu sofrimento
Por vezes é meus olhos mansos
Em calmaria profunda
Contemplando-te em indecisão
Ah, meu bem,
Essa tua cor marrom
Esse teu corpo febril
São as marcas da tua humanidade
Daquela que mesmo em fúria não perdes
Tens a peçonha do ser humano
Sem perder a santidade da carne
És o pão que nunca me pode faltar
O resto de homem que ainda possuo
O branco dos teus olhos
Escondido atrás do teu negro olhar
São a hipnose do meu observar
E assim sigo a vida
Em ti
Em mim
No mundo
No mundo cruel e perfeito que vivemos
Na vida mansa e infinita que fazemos
No amor imperfeito que forjamos
E banhado no pecado dos corpos.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Lavoura
Eu quero dar-te a flor do tempo
Não para que a vejas florir
Mas para que admire o seu perecimento
Perto da tua carne, perto do teu sopro.
E no convite da beleza dos ponteiros
Possas ver-te refletir no relógio parado
Nas válvulas quebradas
Do motor estático
Que perde sua força motriz.
Fechas os olhos e tudo se esvai
Abaixas as pálpebras
E me presenteias com o gelo das horas
Assim te fazes: guardiã dos absolutos
Aquela que desvirtua os mutáveis
Que violenta meus horizontes
Que me dá a poesia
Vivida, chorada, cantada.
Mas não escrita.
Eu vejo que não gostas de poesia
Mas tu, para que gostar?
Transpiras fermento da mente dos poetas
Fertilizas a semente das imaginações
És o irrigar das inspirações.
Te tornaste a lavoura dos meus versos
Onde o trabalho é minha religião
E o colher é meu cristo
És uma presa
Inalcançável ao instinto predatório
Inestimável a tua matilha que és tu mesma.
Passeias pelos vales dos meus olhos
Onde o seguir-te não é opção
Onde o querer-te não é voluntário.
És um verso torto e sem rima
Eivado de beleza ferina
Onde a tua cor castanha
Divina e humana
Faz de meu amor por ti, doce criatura
O mais belo bem libertador.
Paulinho
01/06/2011
terça-feira, 10 de maio de 2011
Chuva
A chuva derrama sua lagrima diária
Compelindo o mundo a chorar com ela
Lavando a rua dos sangues escusos e espúrios
A tempestade arrasta com o vento
Os nomes prostituídos deixados a beira pista
Levando consigo todos os lamentos da pobreza
Ah, quem me dera a chuva lavasse meus olhos
Pra não ter necessidade da lágrima resoluta
Quem dera a chuva limpasse meu rosto
Da feição feliz e resignada de saudade
Quem dera a tempestade
Arrastasse consigo as lamúrias do meu peito
Ardente em vontade
Sereno em amor
Que o vento emasculasse meus sentidos
Ou pelo menos os sentimentos
Por um dia, uma hora, uma semana
Poupando-me da distância
Das léguas
Dos quilômetros
Assim vivo eu
Assim vive meu poeta
Pela primeira vez
Mesclados em um único corpo
Hospedeiros de um mesmo amor
Vítimas e autores de um mesmo delito
Misturando ego e eulírico
Numa uniforme paixão por teus olhos
Assim vivo eu
Assim vive meu poeta
Feito índios dançando à chuva
Como ciganos migrando em direção a tua beleza
Como balonistas
Implorando ao vento sua misericórdia
De levar-nos ao teu encontro
Que nos permita de bocas abertas à tempestade
Provar tua saliva que irrompe em luz pelo espaço que nos separa.
Tua palavra
Tua vida
Tua luz
São as causas pelas quais pecamos
São os motivos pelos quais somos criminosos
São o caminho por onde juramos um dia não passar.
Nosso maior crime
Nosso maior pecado
Nossa maior infâmia
E nossa maior sorte
Foi amar-te como um só.
sábado, 7 de maio de 2011
Saudade
Eu gostaria de repetir o parto da tua chegada
Invertendo os pólos fugazes da tua distância
Perpetuando com isso as bocas que não se arrependem
Dos corpos que ainda se querem
E da saliva que não conseguiu se separar
Meu bem, te sinto tanta falta
A tua ausência esvazia meu ânimo
Me seca metade do copo
Me brinda a tristeza
Festejando saudade
Escrevo-te como um faminto
Desejando teu gosto sem prudência
Idealizando teu cheiro sem paciência
E no barato conclusivo da nossa distância
Falimos com o espaço
Dando à nossa liberdade
A forma mais doce de nos deixar prender.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Porquê
Sou advindo das coisas sem lógica
De coisas que nem as letras querem explicar
Sou filho das imagens sem forma
Sem sentido e sem coerência
Participo das vida como algo que não existe
Como algo que só plana
Que só recolhe o que ninguém quer
E só acolhe o que o quer
Não quero desenhos
Nem gosto das pinturas
Prefiro os rabiscos das crianças envolvidas em sua inspiração
Os traços mal feitos que expressam o seu sentir
Sim,
Eu sou algo alheio ao redondo do mundo
Algo apartado das colunas da vida
Ou de qualquer outra forma que queira ser imposta
Mas reformulo-me nas formas do querer
Do querer por querer
Sem saber nenhum porquê
Prefiro ser filho das coisas mortas
Das coisas que já perderam a vida
Ao ser herdeiro das coisas que vivem por algum sentido
Prefiro repousar na tumba dos que não se perguntam
Do que estar em meio a tantas interrogações
Viver assim me dá amor
Me dá o teu amor
Um amor que se basta em si mesmo
Que não questiona a sua forma
Que não mede o seu infinito
Que não soma nem multiplica
Mas que já existe na proporção máxima do sentir.